Faculdade Paulo VI

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Aula inaugural V. Ex.ª Revma Dom Paulo Alves Romão

Aula inaugural V. Ex.ª Revma Dom Paulo Alves Romão

Passos da experiência cristã

 

            Introdução

 

O mundo em que vivemos

 

O mundo em que vivemos suscita muitas perguntas e incertezas.  Por que?

As mudanças acontecem com tal velocidade que torna quase impossível ter um ponto de referência duradouro, no qual fundamentar a existência humana. Ou seja, é uma sociedade erradicada, sem raízes.  É uma sociedade onde domina o imediato, o útil para o agora. Tudo é liquido, gasoso. Nada é feito para durar.

Consequentemente, somos tomados por um niilismo, ou seja, não se reconhece mais algo que possa dar um sentido definitivo para a existência humana e para o mundo.

Hoje em dia vemos que nada mais é evidente, pois aconteceu uma derrocada das grandes certezas religiosas. Aquilo que a poucos decênios era evidente para todos, hoje não o é de forma alguma. Na realidade, o podemos resumir tudo isso numa frase: “colapso das evidências”.

Em nossos dias tem surgido também o chamado de novo ateísmo, com diversidade de enfoques, segundo os diversos autores, ou seja, uma visão de mundo onde não há lugar para Deus. É um ateísmo com a peculiaridade de creditar à ciência o fundamento definitivo, para poder assim prescindir completamente de Deus.

Para alguns autores, é um ateísmo militante e combativo contra a religião. Esse ateísmo tem uma série de características: 1) afirma que a ciência demostra que não é necessário recorrer à noção de Deus para explicar a existência do mundo; 2) apresenta seus ataques à religião como se fossem uma consequência necessária do conhecimento científico atual[1]; 3) considera a crença em Deus como uma atitude que deriva de uma eleição equivocada: aceitar o que não é evidente; 4) além disso, em alguns autores, pode-se afirmar que a religião é um mal e a origem de muitos males: a intolerância, a violência, as guerras e o ódio; por isso, a religião deve ser erradicada do mundo[2].

Como consequência do que foi dito acima, podemos compreender a razão pala qual as pessoas experimentam em nossos dias muito mais do que em outras épocas, uma grande insegurança, angustia, solidão, aos quais se tenta amenizar com remédios, na maioria das vezes controlados. As pessoas estão com medo do futuro, medo de se casarem de ter filhos, etc.

É dentro desse contexto cultural no qual somos chamados a sermos discípulos e missionários de Jesus Cristo. E frente a tantos desafios, surge em nós, variadas perguntas: de onde partir para comunicar a boa nova salvação realizada na pessoa de Jesus Cristo? Qual método seguir? Como propor novamente a beleza do anuncio da salvação presente no Evangelho? É possível viver hoje a mesma beleza do anúncio do Evangelho, assim como foi para os primeiros discípulos de Cristo, João e André, e logo depois para São Paulo?

Para respondermos a essas perguntas, desenvolveremos alguns passos essenciais da experiência cristã, que precisam ser compreendidos e vividos por cada um de nós, hoje, se quisermos ser leigos e leigos ativos e seguros para responder aquilo que a Igreja nos pede neste ano do laicato no Brasil, ou seja, sermos discípulo e missionários de Jesus Cristo de do mundo, na vida normal do dia-a-dia.

 

Primeiro passo: partir da nossa humanidade como Deus nos cria

 

Partiremos de At 1,6. Mesmo depois de longa convivência com Jesus, desde o desastre do calvário e do mistério da Páscoa, os Apóstolos haviam compreendido ainda muito pouco a respeito d’Ele De fato, perguntaram-Lhe ainda quando estabeleceria o reino de Israel; estavam poucas horas para a sua subida aos céus. Se não tinha entendido ainda, porque o seguiam? E olha que tinham deixado mulher, filhos, casa, barcos, redes, etc.

O seguiam porque Cristo tinha se tornado seu centro afetivo. Com isto foi possível? Cristo era o único em cujas palavras sentiam que toda a sua experiência humana era compreendida, e as suas necessidades eram levadas a sério e trazidas à luz naquilo que eram desconhecidas e confusas.

Mas o que são as suas experiências? As suas experiências, as suas necessidades são eles mesmos, aqueles homens que estão ali, a sua própria humanidade.

Cristo chega, pois, exatamente aqui, à minha postura de homem, quer dizer, de alguém que espera alguma coisa, porque se sente carente; colocou-se junto a mim, propôs-se à minha necessidade original.

Para encontrar Jesus Cristo, devemos, portanto, antes de mais nada, colocar seriamente o nosso problema humano[3].

 

 

Segundo passo: a solidão e a natureza do nosso desejo

 

a)     A solidão

Uma sugestão importantíssima nos vem da situação Atos dos Apóstolos narrada nos versículos 9-11 do primeiro capítulo dos Atos. Cristo se foi e eles continuam ali, parados, boquiabertos - a sua esperança foi-se embora -, desce sobre eles a solidão, como sobre a terra a escuridão e o frio logo que o sol se põe.

Quanto mais descobrimos nossas exigências, tanto mais tomamos consciência de que não podemos satisfazê-las por nós mesmos, nem o podem os outros, homens como nós. O sentimento de impotência acompanha cada experiência séria de humanidade.

É este sentimento de impotência que gera a solidão. A solidão verdadeira não provém do fato de estarmos fisicamente só, mas sim da descoberta de que um problema fundamental nosso não pode encontrar resposta em nós ou nos outros[4].

Pode entender bem isso quem acredite ter encontrado a solução de uma grave necessidade em alguma coisa ou em alguém: e isto desaparece, escapa-lhe, ou se revela incapaz. Estamos sozinhos com as nossas necessidades, com a nossa necessidade de ser e de viver intensamente.

Como uma pessoa sozinha no deserto: a única coisa que pode fazer é esperar que venha alguém. E não será certamente o homem a trazer a solução; pois o que tem que ser resolvido são justamente as necessidades minhas, suas.

 

b)     A natureza do nosso desejo

Podemos compreender isso, citando Santo Agostinho:

 

“’Há pessoas que mais facilmente distribuem todos os seus bens pelos pobres, em vez de tornarem-se elas mesmas ‘pobres em Deus’. O sentido desta frase é explicado pelo próprio Santo Agostinho, que fala dos que são “ricos por si mesmos e não pobres de Deus; têm de sobra em si mesmos, e não sentem falta de Deus”[5]. (exemplo: jovem rico)

 

Em sintonia com estes pensamentos, o Papa Francisco indica-nos que esta pobreza é necessária porque descreve o que temos verdadeiramente no coração: a necessidade Deus, de Deus feito homem, o Emanuel. Portanto, nossa pobreza é tão profunda que é necessidade d’Ele[6].

Então, o que é essa pobreza? A pobreza é o reconhecimento da necessidade de que é feito o nosso coração. O pobre de espírito é a pessoa que não tem nada exceto uma coisa pela qual e da qual é feita, vale dizer, uma aspiração sem fim [...]: uma espera sem limites. “Bem venturados os pobres de espírito, porque deles é reio dos céus; bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados; bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5, 3-16).

Neste caminho tudo serve. A experiência da decepção, inevitável, justamente porque nada corresponde totalmente ao coração. Mas se somos pobres, se compreendemos essa pobreza da qual fala Santo Agostinho, a decepção não nos detém; ao contrário, exaspera a nossa sede. Isso nos obriga a reconhecer que somente Deus pode saciar o desejo nosso coração.  É a partir dessa experiência que entendemos o que é a pobreza. Mais uma vez, Santo Agostinho nos ajuda: “Fizeste-me para Ti, Senhor; e inquieto estará meu coração, enquanto não repousar em Ti”.

Cristo é a resposta à sede que o homem tem de viver a relação com aquilo que dá significado do que faz, do comer e do beber, do amar e do trabalhar, como nos descreve São Paulo. E só consigo reconhecer a resposta se em mim está vivo esta necessidade. Uma pessoa como a samaritana, que sentia a sede do seu coração, reconheceu imediatamente, quem estava em condições de saciá-la.

Provocados pelo exemplo da Samaritana, precisamos perguntar: o que significa a pessoa de Jesus Cristo para mim? Faço experiência dele como fez a Samaritana, ou seja, realmente faço a experiência de ser saciado nas minhas exigências originais de verdade, de amor, de felicidade? A Samaritana finalmente encontrou quem estava à altura de saciar sua sede.

 

            Terceiro passo: voltar ao encontro pessoal com Jesus Cristo

 

Tudo que descrevi como experiência humana é prerrogativa de todos os homens e mulheres. O único gênio que capitou bem todos esses fatores humanos, que os fez emergir, que revelou o seu sentido definitivo, valorizando-os de maneira não imaginada e imprevisível, foi Jesus Cristo.

Neste sentido, o Papa Francisco exorta-nos que para o motor da renovação missionária da Igreja [desejada por ele], consiste em “voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho”. Ele diz desde o início de sua exortação:

 “Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas etapas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado para o mundo atual”[7].

 

É significativo que o Papa comece praticamente seu escrito pastoral com este convite feito direta e imediatamente a cada cristão. É a primeira coisa que brota do coração do Papa:

“Todos os cristãos, em qualquer lugar e situação que se encontrem, estão convidados a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de procura-lo dia a dia, sem cessar”[8].

 

 Por isso, obedecendo a provocação do Papa Francisco, quero aqui descrever sinteticamente como se deu na origem, a partir do encontro histórico com Jesus Cristo, narrado no Evangelho de São João, 1,35-50.

 

a)     João e André   

            O cristianismo é o anúncio de que Deus se tornou um homem, nascido de mulher, num determinado lugar e num determinado tempo. O Mistério que está na raiz de todas as coisas quis se fazer conhecer pelo ser humano. É um fato acontecido na história, é o irromper de uma Presença humana excepcional no tempo e no espaço.

            O primeiro capítulo de São João é a primeira página literária que fala disso. Além do anúncio explicito - “O Verbo se fez carne”, aquilo de que toda a realidade é feita se tornou homem – ele contém a memória dos primeiros que o seguiram. Um deles, João, anos depois, colocou por escrito as impressões e os sinais do primeiro momento em que o fato aconteceu. Ele lê em sua memória as anotações que ficaram[9]. A memória “faz anotações”: uma nota, uma linha, um ponto. As coisas são mais supostas do que ditas, só algumas são ditas como pontos de referência.

            “No dia seguinte, João Batista se achava lá de novo, com dois de seus discípulos (João e André). Ao ver Jesus que passava, disse...[10]. Imaginemos a cena. E João Batista, imediatamente, fixando-o, gritou: “Eis o cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo!”[11]. João e André, vendo que João Batista apontava para Jesus, curiosos, seguiram-no. Jesus voltou-se e, vendo que eles o seguiam, disse-lhes: ‘Que estais procurando? Disseram-lhe: “Mestre, onde moras?’ Disse-lhes: ‘Vinde e vede’”: esta é a fórmula cristã, o método cristão é este. “Então eles foram e viram onde ele morava, e permaneceram com ele aquele dia. Era a hora décima, aproximadamente[12].

O relato prossegue: “Um dos dois que tinham ouvido as palavras de João Batista e o tinha seguido chamava-se André, era irmão de Simão Pedro. Ele encontrou por primeiro seu irmão Simão, e lhe disse: ‘Encontramos o Messias’”. Como fez André para dizer ao irmão: “Encontramos o Messias?” Fato é que era evidente que, após ter ficado ali horas a escutar aquele homem, vê-lo falar - quem era aquele que falava assim -? Quem jamais tinha falado assim? Quem jamais tinha dito aquelas coisas? Nunca tinham escutado nem visto uma pessoa assim! – lentamente, dentro de seu espírito, emergia uma expressão precisa: “Se não posso acreditar neste homem, não posso acreditar mais em nada, nem nos meus olhos”. “E André conduziu Simão até Jesus. Fitando-o, disse-lhe Jesus: ‘Tu és Simão, o filho de João; chamar-te-ás Cefas (que quer dizer          Pedra)[13]”. “Te chamarás Pedra”. Que impressionante deve ter sido sentir-se olhado assim por um outro, absolutamente estranho, e sentir-se tão tocado no profundo de si mesmo.

 

b) Excepcional e com uma simpatia humana profunda

Mas como puderam os dois primeiros, João e André, ser tão repentinamente conquistados e reconhecê-lo (“Encontramos o Messias”)? Há uma aparente desproporção entre a modalidade simplíssima do que aconteceu e a certeza dos dois. Se esse fato aconteceu, reconhecer aquele homem, quem era aquele homem, não profundamente e detalhadamente, mas no seu valor único e incomparável, devia, pois, ser fácil. Porque era fácil reconhecê-lo Por causa de uma excepcionalidade incomparável. Tinham diante de seus olhos uma excepcionalidade incomparável: tinham entrado em contato com um homem excepcional, absolutamente incomum, irredutível a qualquer análise.

Que quer dizer “excepcional”? Quando uma coisa pode ser definida como “excepcional?” Quando corresponde de forma adequada àquilo que originalmente o coração espera, por mais confusa e nebulosa que possa ser a consciência dessa espera. O excepcional é paradoxalmente, o surgimento daquilo que é mais “natural” para nós. E o que é mais “natural” para nós? Que aquilo que nós desejamos aconteça. Com efeito, nada é mais natural do que a satisfação realizada do desejo último e profundo do coração, do que a resposta às exigências que estão na raiz do nosso ser, para as quais de fato vivemos e nos movemos. O nosso coração tem uma necessidade última, imperiosa, profunda, de realização, de verdade, de beleza, de bondade, de amor, de certeza final, de felicidade; por isso, deparar-se com uma resposta para essas exigências deveria ser a coisa mais óbvia e normal.

Para João e André, aquele homem correspondia de modo inimaginável às exigências irresistíveis e inegáveis do coração. Ninguém era como aquele homem. Não só foi fácil reconhece-lo: era facílimo viver o relacionamento com ele. Bastava aderir à simpatia que brotava, uma simpatia profunda, semelhante àquela vertiginosa e carnal da criança para com a sua mãe, que é simpatia no sentido intenso da palavra.

 

Quarto passo: o Acontecimento cristão tem a forma de um encontro

 

Para João, André, Pedro, o cumprimento da grande promessa bíblica era um homem bem ali diante dos seus olhos. Não existe outra palavra para descrever aquela presença diante dos olhos deles, que não seja a palavra “acontecimento”. O cristianismo é “acontecimento”. A este propósito, fala-nos o Papa Francisco:

 

“Ao início de ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, uma Pessoa que dá um novo horizonte e, dessa forma, um resumo decisivo” (EG, 7).

 

Agora nos interessa sobretudo a palavra acontecimento como a única categoria que pode definir o que é o cristianismo: o cristianismo é um acontecimento. Fora do acontecimento do encontro com Cristo, não podemos entender de fato quem somos, qual é a consistência da nossa vida. E o acontecimento cristão é algo novo, que vem de fora, que rompe as engrenagens, que não fruto dos nossos esforços ou iniciativas[14].

Com efeito, diante da descristianização do mundo contemporâneo, Peguy não coloca o problema da modernização da linguagem e muito menos dos conteúdos de fé católica. Por parte do homem, a única resposta possível à descristianização é o desejo que o cristianismo aconteça de novo como acontecimento. Um acontecimento dentro do real como ele nos desafia todos os dias[15].

            O acontecimento cristão tem a forma de um encontro: um encontro humano na realidade banal de todos os dias[16]. O rosto de Jesus no acontecimento tem traços de rostos humanos, de companheiros, de homens e mulheres que Ele escolheu, exatamente como nos vilarejos da Palestina onde não podia ir Jesus adquiria o rosto daqueles dois discípulos que Ele envia[17], chegava “sob a forma” daqueles dois que ele escolhera. Era tal e qual: “Mestre, aquilo que fazes acontecer, nós também fazemos acontecer”[18].

O acontecimento cristão tem a forma de um encontro: é algo que penetra os nossos olhos, que toca o nosso coração, que podemos agarrar com os nossos braços. Para João e André, assim como para cada um de nós e para todo homem e mulher que ouve a respeito disso, é um encontro. Trata-se de um encontro, nenhum milímetro menos concreto que isso.

O que caracteriza o fenômeno do encontro é uma diferença qualitativa, uma percepção diferente da vida. O encontro é o deparar-se com uma diversidade que atrai na mediada em que corresponde ao coração; passa, portanto, através da comparação do juízo da razão, e suscita a liberdade na sua afetividade.

O encontro estabelece o choque com uma diversidade, coincide com a experiência de uma diferença que toca. Diferente de que? Da mentalidade comum, do modo corriqueiro de conceber o que se deseja, do modo “normal” de entrar em relação com a realidade em todos os seus detalhes. O que toca e move são pessoas, rostos com uma identidade que se mostra mais verdadeira, mais correspondente ao coração, não determinada por toda a trama de fatores que compõem o clima social do modo como é favorecido pelo poder e sofrido passivamente por todos.

 

 Quinto passo: um fato no presente, um fato no passado

 

João e André voltaram para casa naquela tarde e disseram: “Encontramos o Messias”[19]. Eles tinham feito um encontro – um acontecimento que estava acontecendo no presente – que tinha a pretensão de ser o significado exaustivo das suas vidas. Mas o significado daquele encontro, o seu conteúdo, estava enraizado em que? Aquele acontecimento realizava, de modo imprevisível, uma história passada. Nessa história tinha iniciado a proclamação dessa pretensão e, no seu contexto, tornava-se possível explicar o conteúdo do encontro que naquele momento estava se realizando. Era a grande história do povo judeu (a lei, os profetas, os salmos), nascida de Abraão por uma promessa de Deus: ele seria o início de um grande povo que carregaria o significado do mundo inteirocomo diz Isaías, que não fala do povo de Israel somente, mas de todos os povos[20].

João e André - é igual para os dois discípulos de Emaús – tinham diante de si Jesus, mas a pretensão de significado total que aquele acontecimento carregava para as suas vidas fazia referência a um passado no qual o acontecimento tinha sido profetizado; brotava do presente uma memória cujo conteúdo iniciava no passado. Não podiam explicar Cristo para si mesmos a não ser começando a considerar aquilo que nunca tinham tão conscientemente retomado em suas vidas: o fato de Deus tinha prometido ao homem, à espera, a Sua vinda: Era um encontro que dava plenitude a um início precedente[21].

 

a)     A memória

Acontece o mesmo para nós, hoje. O encontro que acontece agora é fonte de memória porque é o deparar-se com uma presença que inicia no passado. Quando Policarpo, bispo de Esmirna, falava de seu mestre João (que era velho quando ele o conheceu) e de como ele falava daquela tarde na qual, com André, viu Jesus pela primeira vez, comovia-se profundamente (Policarpo, depois, deu a vida por Cristo: queimaram-no na fogueira)[22]. Por meio de João, ele fez o encontro com Cristo; o encontro com Cristo tinha para ele o rosto, as características e os traços de João, dos cristãos de Esmirna e do chefe da sua comunidade. Mas aquele encontro, que deu origem à fé de Policarpo, tirava todo o seu valor, o seu conteúdo, a sua consistência, de Jesus de Nazaré, nascido de Maria, o homem que, naquela tarde, depois de ter recebido o batismo de João Batista, voltou para casa seguido por aqueles dois que não ousavam dirigir a palavra. Por isso o encontro é fonte de memória. O que investia Policarpo naquele momento era um fato presente: “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre!”[23]; mas era um fato do presente iniciado anos antes.

“Memória” indica a profundidade histórica do encontro, até alcançar a raiz da qual, em última instância, ele nasce. O encontro feito hoje é verdadeiro porque Ele, Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, morreu e ressuscitou, subiu ao céu e investe a realidade com o seu Espírito. Esse encontro vale por um Fato acontecido há dois mil e dezessete anos. A fé é consciência de uma presença que começou no passado. Por isso, o encontro ativa a memória.

O encontro se caracteriza como impacto com algo excepcional, capaz de mudar radicalmente a vida, mudando a sua forma, de modo a criar um homem novo[24]. A palavra “memória” é decididamente dominante, justamente porque indica que o encontro feito hoje tem no passado a sua raiz. O encontro presente faz descobrir o acontecimento original que, por sua vez, fundamenta, decide sobre a verdade do encontro presente, explica-o. Portanto, a palavra memória descreve a história entre o acontecimento, na sua origem, e o encontro que faz do acontecimento original uma presença inevitável, indestrutível, inegável; toda a riqueza do início está dentro do presente e é no presente que a pessoa descobre a divindade da origem. A memória e a história entre a origem e o agora.  

O conteúdo material (pensamento, afetividade, obra) da palavra memória chama-se também Tradição.

 

b)     Do passado e do presente

A dinâmica do acontecimento cristão pode ser descrita, seja partindo do passado e indo em direção ao presente, seja partindo do presente e indo em direção ao passado. Tal dinâmica pode ser sintetizada nas seguintes formulações:

a) um acontecimento do passado, que tem uma pretensão de significado para a própria vida, é encontrável na experiência de um acontecimento presente, que é o início de uma memória cujo conteúdo é completamente explicado no acontecimento passado;

b) Um acontecimento presente, que tem a pretensão de ter significado definitivo e totalizante para a própria vida, só se pode explicar por causa do acontecimento do passado no qual tal pretensão se inicia e à qual pode-se chegar por uma memória do conteúdo de então que agora se realiza.

É num acontecimento presente que a pessoa descobre, hoje, um acontecimento do passado que tem a mesma pretensão de significado; desse modo, o acontecimento presente estabelece uma memória que tem o seu conteúdo ultimo naquele acontecimento passado[25].

 

            Sexto passo: O dom do Espírito

 

            Como pode se dar aquele acontecimento? Como podemos ser provocados pelo choque daquele encontro – pelo qual a vida a vida começa a ser iluminada, mesmo com uma luminosidade crepuscular se insinua no nosso horizonte, e surge um desejo de entender mais aquilo que encontramos, de sermos mais profundamente atingidos e de seguir? Como acontece? Porque não há nenhum precedente que possa prevê-lo, mas acontece. E, se acontece, tem uma causa. Todavia, ela não se deixa inserir no elenco que as nossas análises de acontecimentos antecedentes podem formular: é uma outra coisa. Qual é, então, a causa do acontecimento, a causa pela qual aquele acontecimento se torna um encontro com uma presença excepcional, que depois reconheceremos conscientemente como divina, à qual depois diremos “Tu, o Cristo” – depois, não na hora? No momento do encontro, ela é apenas uma realidade que simplesmente nos toca e nos move pela sua diversidade, porque quem foi atingido por aquele acontecimento e participa da sua comunicação no mundo tem uma face com aspectos diversos: tem critérios diversos, uma emotividade diversa, um ímpeto de gratuidade desconhecido, uma capacidade de empenho diferente.

A causa daquele acontecimento, daquele encontro e do movimento que suscita em nós chama-se, na linguagem cristã, Espírito Santo. Chamamos Espírito Santo a energia com a qual o mistério de Deus age no mundo que criou, plasma-o e o dirige, como um grande rio rumo à sua foz – que é o próprio mistério de Deus.  Essa energia vem ao mundo e o penetra infinitamente mais do que quando aquele Homem a que o mesmo Espírito de vida (“concebeu por obra do Espírito Santo) morreu e ressuscitou. Desde que aquele homem, que é Deus morreu e ressuscitou, esse Espirito é o Seu Espírito, e é a energia com a qual Ele está destinado a tomar posse definitiva de todas as  coisas, como diz o capítulo 17 de São João: “Tu, o pai, me deste nas mãos toda a carne - todos os homens – para que tenham a vida eterna”, “Esta é a vida – vida eterna quer uma vida que seja “vida” – que te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, aquele que enviaste, Jesus Cristo”.

O Espírito de Deus é a energia com a qual Cristo penetra na história, no tempo e no espaço, conquistando aquilo que o Pai lhe deu nas mãos, segundo um desígnio que para nós parece lento, mas para Ele, diante do qual mil anos são como um dia, tudo tem a brevidade de um instante.

Pelo seu caráter donativo e comunicativo de vida, de fé, de certeza, e, portanto, de estímulo a fazer, de esperança e de largueza infinita de dedicação, ou caridade, sempre se diz “o dom do Espírito Santo”. Em vez de “dom do Espírito Santo” podemos usar mais brevemente o termo “graça”, que é espetacularmente significativo. Não existe uma palavra mais bela do que essa, “graça”, que implica uma riqueza sem fim, com uma modalidade e uma fantasia sem possibilidades de limites, e onde tudo é por amor; por amor do destino do outro [que outro seja realmente feliz], como para Cristo tudo foi por amor ao destino dos homens e das coisas pelo desígnio do Pai, do Mistério. O Mistério domina a palavra “graça” na medida em que ela atinge a vida do homem: “A graça é ainda mais misteriosa e mais profunda que a beleza. A graça é ainda mais arbitrária, mais livre, mais soberana, mais perfeitamente ilógica; inquietante também, como tudo o que é dado gratuitamente. Poder da graça. Poder eterno do Sangue eterno, um Sangue eterno, o de Jesus Cristo’.

 

Sétimo passo: A comunidade nova

 

A solidão, tal como a descrevemos, aproxima o homem dos outros, reúne-o aos outros na experiência da necessidade universal; a comunidade que surge desse modo é como a única experiência de abrigo, de doçura passageira, de segurança precisa para pessoas sem rumo.

As tentativas para reunir tudo o que sentimos faltar são um trabalho ansioso, de resultados ambíguos e frágeis, que cada geração sente o tormento de denunciar e mudar – quando, como frequentemente acontece, “a ira de sua vã procura” (Pascoli) arrasta o homem à impaciência irrefletida, a violências amargas, às trágicas presunções.

A civilização humana cria, assim, comunidades de tramas tão precárias e ilusórias, que mais parecem ciladas do que passos para o caminho real.

A superação da solidão na experiência do Espírito de Cristo não apenas aproxima o homem aos outros – escancara-o a eles desde as profundezas do seu ser. A verdadeira vida do homem, o sentido da existência de cada um é Cristo: uma só realidade é a vida e o sentido de todos. “Eu sou a videira e vós os ramos” (Jo 15,5).

A comunidade se torna essencial para a própria vida de cada um. A solidariedade humana se torna Igreja. O “nós” se torna plenitude do “eu”, lei da realização do “eu”. “Nós sabemos, ó irmãos, que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” – escreve São João aos primeiros cristãos (1Jo 3,14).

Uma unidade tão absolutamente imprevisível quanto indissolúvel faz da Igreja a redenção da comunidade humana, o ideal realizado da comunidade. “A fim de que todos sejam um. Como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti, que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que Tu me enviastes”  (Jo 17,21).

A certeza do caminho e a força do Espírito animador geram, nesta comunidade, uma capacidade de consciência sem descanso, em a entrega é óbvia até a morte (o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas).

Uma fecundidade e uma intensidade de obras, uma ordem íntima, surgem do profundo a vida da comunidade nascida do acontecimento do Espírito:

 

“Eu te conjuro, diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de vir julgar os vivos e os mortos, pelo seu Retorno e por seu Reino: proclama a Palavra, insiste, no tempo oportuno e no inoportuno, refuta, ameaça, exorta com toda paciência e doutrina” (Tm 4,1-2).

 

Esta vigilante paixão pelo tempo, pelas coisas e pelas pessoas recria a convivência dos homens entre si e com as coisas. A comunidade cristã cria, inexoravelmente, uma nova civilização. E quanto mais é preciso à fidelidade ao Espírito de Cristo, tanto mais as tramas desta civilização são experimentadas como caminhos ideais e definitivos.

O encontro com uma comunidade cristã qualquer que procure viver decididamente em nome de Cristo realiza inevitavelmente uma forma de convivência, um clima e um ritmo humano tão diferente do comum que não pode deixar de tocar quem observa como algo de novo, de estranho, de perturbador, de humanidade ideal.

 

[1]   Cf Ocáriz, F. O Chamado novo ateísmo. Palestra por ocasião do Curso dos Bispos. Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 2018, p. 1. Ocáris cita como exemplo, filósofo norteamericano Daniel Dennet, que escreveu um livro God is not Great, traduzido como Deus não é bom. Argumento contra contra a religião, que alcançou ampla difusão,

 

[3] Giussani, L. Passos da experiência cristã. São Paulo: Companhia ilimitada, 2006, p. 103

[4] Idem, p. 105.

[5] Santo Agostinho. Salmo 71,3. Comentário aos Salmos. São Paulo: Paulus, 1997, v.2.

[6] Cf. Carta de Papa Francisco à Fraternidade do Movimento de Comunhão e Libertação. Novembro de 2017.

[7] EG, 11.

[8] EG, 3.

[9] Idem. O acontecimento cristão como encontro. Revista Passos, edição brasileiro, agosto de 2001, p.3.

[10] Jo 1,35-36.

[11] Jo 1,39.

[12] Jo, 1,40-41.

[13] Jo 1,43.

[14] Cf. PEGUY, CH. In: Supremento a 30DIAS, n. 6. São Paulo, Loyola, p. 13.

[15] Idem, p.16.

[16] Cf. Giussani, L. Passos de experiência Cristã. São Paulo: Companhia Ilimitada, 1993, p. 31.

[17] Cf. Lc 10, 1-16.

[18] Cf. Lc 10,17.

[19] Jo 1,41.

[20] Cf. Is 49,6.

[21] Cf Hb 13,8.

[22] Cf. G. Galdarelli (org,). Atti dei martiri. Milão, Paoline, 1985, pp 100ss.

[23] Hb 13,8.

[24] Cf. Rm 12, 1-12.

[25] Cf. Giussani, L. Passos de experiência Cristã. São Paulo: Companhia Ilimitada, 1993, pp. 27-28

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